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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Epístola a Filemon: um apelo à inclusão social


Por Jurgen Souza e Nilza Farias

Apesar de não vivermos mais em uma sociedade escravocrata, é possível perceber, ainda hoje, os resquícios do preconceito que permeia algumas das mais nítidas convenções sociais e, através de ações desumanas, conduz a uma vivência social excludente, com a qual até mesmo os que se dizem cristãos têm sido coniventes. Vale lembrar que a religiosidade, quando está amparada na equivocada ideia de que existem pessoas superiores e pessoas inferiores, pode desencadear a face mais nefasta do preconceito, pois segrega em nome de Deus e toma por base uma leitura deturpada das Escrituras Sagradas. O que se pretende aqui, porém, é demonstrar, através de um estudo do texto de Filemon 1:8-20, que a orientação bíblica, embora haja quem se apegue a algumas passagens descontextualizadas, é que devemos amar o próximo com uma intensidade que nos faça sempre colocar o ser humano em primeiro lugar e buscar a superação das convenções sociais, para anunciar com ações práticas que todos têm igual valor diante de Deus. Espera-se, com isso, que os cristãos, de maneira geral, possam refletir a respeito de suas posturas e práticas, procurando ajustar sua vivência social à mensagem transmitida por Jesus.
A epístola a Filemon, escrita pelo apóstolo Paulo entre o final da década de 50 d.C. e o início da década de 60 d.C., apesar de não condenar explicitamente o regime escravocrata, ataca as bases ideológicas legitimadoras da escravidão por meio de uma orientação que era válida para Filemon ou qualquer pessoa que abraçasse o cristianismo. Ao contrário do que pensam os ainda hoje defensores da prática escravagista, a epístola a Filemon não se constitui como uma evidência da apologia bíblica à escravidão, já que os princípios cristãos mencionados nela diferem do pensamento de superioridade típico do regime escravocrata e apontam para a necessidade de demonstrarmos amor por meio das nossas ações diárias a todos indistintamente, inclusive àqueles que nos servem. Ressalta-se que, naquela época, boa parte dos habitantes da região de Colossos, onde residia o destinatário da carta, era composta por escravos e, por isso mesmo, havia leis específicas que procuravam dar conta das questões que envolvessem essa parcela da população. Não se saiba com exatidão o que motivou a fuga do escravo Onésimo, mas era fato que a lei romana dava ao escravo fugido a possibilidade de se refugiar em um altar religioso, seja em espaço público ou em uma casa particular, sendo que a pessoa responsável pelo altar deveria agir, então, como um intermediário em favor do escravo, quando o re-encaminhasse ao seu senhor. É possível, portanto, que Onésimo tenha se aproximado de Paulo na prisão por conta, inicialmente, dessa prerrogativa da lei, mas acabou se convertendo ao cristianismo através da pregação do apóstolo.
O fato de “Onésimo” significar “útil ou valoroso” e “Filemon” significar “amigo ou amoroso” já parece prenunciar aquilo que o conteúdo da carta revelará: o amor ao próximo deve superar as convenções sociais para, com foco no ser humano, anunciar que todos têm igual valor diante de Deus. A proposta da carta, portanto, está centrada no princípio cristão de que o ser humano deve ser priorizado, ainda que em detrimento das instituições e dos contratos sociais. Nota-se logo de início que, apesar de Paulo ser respeitado por Filemon como uma importante autoridade eclesiástica, as palavras do apóstolo possuem um tom de súplica e apelam à sensibilidade cristã de Filemon, conforme se lê em “Embora eu tenha plena liberdade em Cristo para te ordenar o que deves fazer, prefiro pedir-te confiado no teu amor” (v 8- 9a). Isso se confirma quando, mais adiante, Paulo deixa bem claro que o fato de ter escolhido pedir ao invés ordenar não retira sua autoridade sobre o destinatário da carta, mas ressalta que, para fazê-lo atender a um pedido tão despropositado numa sociedade escravocrata como aquela, era necessário evocar o amor cristão. Assim, o trecho “E se ele te causou algum prejuízo ou te deve alguma coisa, lança-o na minha conta. Eu, Paulo, escrevo isso de próprio punho; eu o pagarei, para não mencionar que tu me deves a ti mesmo.” (v. 18-19), que parece ser um arroubo de arrogância de Paulo, é, na verdade, uma explicação de que ele abdicou de falar como autoridade eclesiástica para falar como irmão em Cristo.
Ao interceder por Onésimo, porém, Paulo relata que o conheceu na prisão, menciona o fato de ele ter se convertido e faz questão de, através de um trocadilho com o significado do nome do escravo, demonstrar que ele agora tem muito mais valor, conforme se observa no trecho “Eu, Paulo, já velho e agora também prisioneiro de Cristo Jesus, venho interceder por meu filho Onésimo, que gerei quando estava na prisão. Anteriormente, ele te foi inútil, mas agora é muito útil para ti e para mim.” (v. 9b-11). Cumprindo, então, o que determinava a lei romana acerca do escravo fugido, o apóstolo Paulo re-encaminha Onésimo a Filemon, destacando a importância que ele teve para seu ministério enquanto estava preso, como se pode ler em “Eu o envio de volta a ti, como se estivesse enviando o meu próprio coração. Gostaria de mantê-lo comigo, para que em teu lugar me servisse na prisão por amor do evangelho, mas eu não quis fazer nada sem o teu consentimento, para que a tua bondade não fosse forçada, mas sim espontânea.” (v. 12-14). 
Contudo, o ponto-chave do texto em análise é, de fato, o momento em que o apóstolo pede a Filemon que receba Onésimo de volta não mais como escravo, mas como um irmão amado que tem tanto valor quanto ele, Paulo, ou o próprio Filemon, conforme se observa na leitura do trecho “Pode ser que ele tenha se separado de ti por algum tempo, para que pudesses reavê-lo para sempre, não mais como escravo; aliás, melhor do que escravo, como irmão amado, particularmente por mim, e ainda mais por ti, tanto humanamente como também no Senhor.” (v. 15-16). Dessa forma, Paulo reitera, mais uma vez, que a vivência do evangelho de Cristo não condiz com o errôneo pensamento de que existem pessoas superiores e pessoas inferiores, mas orienta a uma postura de igualdade e respeito mútuo entre quaisquer pessoas, confirmando o que já havia dito aos crentes das igrejas cristãs na Galácia ao afirmar que “Todos os que em Cristo fostes batizados, de Cristo vos revestistes. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:27-28). Por fim, sabendo do respeito e da consideração que Filemon nutria por ele, o apóstolo pede que Onésimo seja recebido e tratado como se fosse o próprio Paulo, afirmando que esse favor lhe seria de tamanha importância que lhe traria mais ânimo ao coração, como se pode verificar em “Assim, se me consideras um irmão na fé, recebe-o como se recebesses a mim mesmo. [...] Sim, irmão, gostaria de ser beneficiado por ti no Senhor; dê ânimo ao meu coração em Cristo.” (v. 17 e 20).
Inúmeros cristãos interpretaram, ao longo dos anos, o texto de Filemon 1:8-20 como uma autorização para a segregação social e até mesmo para a escravização dos segregados, compreendendo que Paulo não mencionou uma só palavra em favor da libertação de Onésimo, orientando somente que Filemon recebesse de volta o escravo fugitivo. Embora haja quem faça ainda hoje uma leitura excludente desse texto, não se pode negar, porém, que a proposta de se tratar um homem socialmente inferiorizado como igual derruba qualquer pensamento escravagista, uma vez que a escravidão está embasada exatamente na ideia de superioridade de um determinado grupo social sobre outro(s). Por essa ótica, o discurso antiescravocrata de Paulo, mesmo estando nas entrelinhas, demonstra que, na condição de escravo, Onésimo foi inútil a Filemon, deixando transparecer que, para o apóstolo, a escravidão inutiliza o ser humano, o qual só tem valor de fato quando goza de liberdade social e espiritual. Nota-se que Paulo não orienta o retorno de Onésimo à casa de Filemon como um escravo, mas como um irmão tão valoroso quanto o próprio apóstolo ou quanto o próprio Filemon.
Mesmo não estando hoje sob o fardo da escravidão, precisamos nos esforçar enquanto cristãos para amar o próximo de uma maneira que transcenda às convenções sociais e revele ao mundo a graça de Deus através das nossas atitudes, já que foi essa a orientação de Jesus Cristo àqueles que se dizem seus discípulos. Precisamos buscar uma vivência religiosa capaz de subverter as convenções sociais e, de maneira igualitária, valorizar todas as pessoas, independente da suas raízes étnicas ou da sua condição socioeconômica. Uma postura como essa requer que escolhamos, de forma bem clara, que tipo de evangelho queremos proclamar ao mundo: um evangelho excludente e compromissado tão somente com a manutenção de uma estrutura social que beneficia o grupo hegemônico, legitimando a opressão e a segregação de quaisquer pessoas que não fazem parte dele, ou um evangelho includente e compromissado com os valores transmitidos por Jesus Cristo, possibilitando a compreensão de que todas as pessoas indistintamente devem ser tratadas com igual respeito. De maneira muito sábia, o apóstolo Paulo orientou Filemon naquele momento, e indiretamente nos orienta ainda hoje, a proclamar um evangelho includente, capaz de conduzir a um posicionamento contrário às práticas sociais mais comumente aceitas, a fim de priorizar a dignidade humana ou, em alguns casos mais extremos, a própria vida humana.

sábado, 2 de junho de 2012

A religião cristã a serviço de Mamom



Por Jurgen Souza


Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. 
(Mateus 6:24)





Na tradição cultural do povo judeu, de quem o cristianismo herdou as bases religiosas, o termo Mamom (uma transliteração da palavra hebraica que significaria dinheiro ou riqueza) faz referência a uma divindade personificada nos bens materiais. A mensagem trazida por Jesus e que deveria ser norteadora da vivência religiosa do cristianismo adverte claramente que quem é controlado pelo desejo de possuir, numa evidente adoração a Mamom, não pode jamais ser considerado um servo de Deus. Todavia, na contramão dos ensinamentos de Cristo, muitas religiões cristãs da sociedade contemporânea, especialmente as do segmento evangélico, têm assumido posturas ideológicas legitimadoras do neoliberalismo econômico, transformando a fé em mercadoria e fazendo de Mamom o seu verdadeiro deus.
Ao contrário, porém, do que se pode imaginar, essa relação entre o protestantismo e o capitalismo não é recente, mas remonta aos primórdios do movimento protestante, o qual sempre defendeu que uma sociedade que refletisse a glória de Deus estaria diretamente relacionada à dedicação incondicional ao trabalho e à busca pela aquisição de bens. Segundo Max Weber, o espírito capitalista se fortaleceu e se propagou rapidamente amparado nesse pensamento protestante, o qual justificaria a busca desenfreada desse novo grupo de cristãos pela lucratividade e pelo acúmulo de bens, já que o não agir dessa maneira implicaria em desagradar aos planos do próprio Deus. Embora, porém, o capitalismo tenha se constituído a partir da herança da ideologia protestante e das relações sociais estabelecidas por ela, a própria religião acabou se tornando uma mercadoria e servindo aos interesses das elites socioeconômicas, permitindo compreender que a salvação do indivíduo estaria condicionada ao trabalho e à riqueza criada por ele. Karl Marx afirma que esse processo de mercadologização da religião ocorre quando a força de trabalho do indivíduo e a riqueza que ele pode produzir passam a ser exigidas como requisitos para adquirir a salvação oferecida através religião.
Ainda que esse processo de mercadologização da religião por parte do segmento evangélico tenha mesmo raízes históricas, certamente foi na sociedade contemporânea que a transformação da vivência religiosa em mercadoria do sistema capitalista acabou ganhando impulso, já que as religiões ditas protestantes, especialmente as pentecostais e neopentecostais, passaram a assumir posturas ideológicas cada vez mais legitimadoras do neoliberalismo econômico. Ao relacionar a vivência religiosa bem sucedida à realização das aspirações materiais, através da chamada “teologia da prosperidade”, muitas igrejas evangélicas acabam transmitindo a ideia de que, assim como numa relação contratual qualquer, a pessoa que assume o compromisso financeiro por meio dos dízimos e das ofertas pode exigir que Deus a abençoe com aquilo que ela deseja. De acordo com Pierre Bourdieu, uma nova vivência religiosa surge, portanto, nesses tempos pós-modernos, tornando a lógica interna da economia de mercado visível no interior do campo religioso e transformando a relação entre fiéis e igrejas numa relação clientelista, alimentada por uma variedade de produtos e serviços atraentes aos milhões de consumidores da fé que anseiam pela tão propagada ascensão financeira instantânea.
Esse nítido retorno à compra de indulgências, princípio herético veementemente combatido por Lutero nos primórdios do movimento protestante, tem agora o auxílio das estratégias de marketing típicas da mídia televisiva e, com tal veiculação rápida e exponencial, o discurso religioso impregnado de capitalismo tem se tornado uma poderosa ferramenta de dominação ideológica, fazendo com que uma multidão de pessoas, alienada por uma vivência religiosa desprovida de qualquer senso crítico, deixe-se dominar pelos líderes religiosos e pelas instituições eclesiásticas que assumem tal postura. Os testemunhos emocionados transmitidos pela televisão mostram ao público geral os consumidores satisfeitos com os produtos adquiridos, aguçando outros clientes em potencial com as mais variadas ofertas de uma solução imediata que satisfaça suas necessidades e sempre vinculando tais ofertas a um “pagamento” financeiro. Não é à toa, portanto, que essas instituições eclesiásticas apresentem um crescimento vertiginoso no número de adeptos e que, na ânsia por alcançar uma clientela cada vez maior, invistam muito dinheiro para ter mais espaço na mídia televisiva, uma vez que a visibilidade midiática permite uma exposição ainda maior dos produtos oferecidos e atinge um mercado consumidor muito mais abrangente.
De acordo com Peter Berger, quando as pessoas consideram esse discurso religioso impregnado de interesses mercadológicos como a verdade absoluta, refutando qualquer outro discurso que dela divirja, isso demonstra que elas passaram pelo processo de alienação. Justamente por conta desse processo de alienação, acabaram se tornando mais vulneráveis ao poder de dominação dos muitos líderes religiosos mal intencionados, sendo induzidos até a fazer empréstimos bancários para que, por meio das campanhas e dos propósitos constantes, possam ter acesso às bênçãos de Deus. Assim, dominadas por essa ideologia perversa, inúmeras são as pessoas que não medem esforços para participar dos propósitos financeiros, apesar da continuidade das muitas mazelas sociais com as quais convivem diariamente, e sequer questionam o fato de seus líderes religiosos construírem um verdadeiro império enquanto muitos dos que se amontoam nos templos mal conseguem pagar as próprias contas.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Não há lugar: uma reflexão natalina sobre os efeitos da religiosidade

Por Jurgen Souza

Todas as vezes que o natal se aproxima, as pessoas parecem se esconder por detrás daqueles enfeites coloridos e daquelas musiquinhas alegres. Conta-se e reconta-se a história do nascimento de Jesus, mas poucos são os que, verdadeiramente, refletem a respeito dos ensinamentos que esse acontecimento ocorrido há mais de dois mil anos pode trazer à vida contemporânea. Indubitavelmente, a sociedade em que vivemos nesse princípio de século XXI, imersa nos mais variados conflitos econômicos, políticos e sociais, tem ainda muito a aprender com essa história aparentemente tão conhecida. Este texto, no entanto, ater-se-á a um aspecto intrigante do relato bíblico (Lucas 2:1-7), o qual envolve o fato de Jesus, o filho de Deus que veio trazer salvação ao mundo, ter nascido numa manjedoura dentro de um estábulo.
            A tradição cristã incutiu no imaginário coletivo a ideia de que o nascimento de Jesus se deu nessas condições para que se cumprissem as profecias a respeito do tão esperado “messias”. Esse pensamento, porém, não tem comprovação bíblica, uma vez que não há registro de que nenhum profeta tenha feito tal afirmação. Embora a bíblia não seja a única fonte histórica que possa ser usada, é a ela que se apegam os muitos pregadores que vociferam tal forma de explicar essa questão. De acordo com o texto bíblico, o profeta Isaías afirmou que ele nasceria de uma virgem (Isaías 7:14), o profeta Miqueias afirmou que ele nasceria em Belém (Miqueias 5:2), e o profeta Zacarias afirmou que ele seria de origem humilde (Zacarias 9:9). Contudo, profecia alguma aponta para o fato de o redentor da humanidade nascer numa estrebaria.
Outra ideia equivocada e, ainda assim, muito veiculada a respeito desse aspecto do nascimento de Jesus faz alusão ao simples fato de que a hospedaria estaria lotada, o que haveria obrigado José e Maria a se abrigar numa estrebaria. Para legitimar esse pensamento conhecido no meio cristão, os pregadores costumam usar o argumento textual, enfatizando que a bíblia afirma que “não havia lugar na hospedaria”. É preciso, entretanto, esclarecer que tal afirmação acaba, na verdade, por distorcer o relato bíblico, já que omite uma expressão presente no texto que alteraria profundamente sua interpretação. O evangelho de Lucas apresenta como explicação para o nascimento de Jesus ter acontecido no meio de um estábulo o fato de “não haver lugar PARA ELES na hospedaria” (Lucas 2:7), o que permite compreender que o problema não era a falta de vagas na hospedaria e sim a impossibilidade de José e Maria conseguirem um lugar que os recebesse.     
            Muitos são os pregadores que procuram explicar essa impossibilidade a partir da condição sócio-econômica da família Jesus. De acordo com esse pensamento, José e Maria, por serem pobres, não teriam condições de pagar a hospedaria durante o período do recenseamento que os levou a Belém (Lucas 2:4), tendo Maria que dar à luz numa estrebaria. Muito embora eles não possuíssem mesmo uma boa condição financeira, cabe ressaltar dois pontos cruciais acerca do contexto em que tudo isso ocorre. Em primeiro lugar, era comum que, num período de recenseamento como esse, houvesse hospedarias para todos os gostos e bolsos, pois até mesmo as casas de família costumavam, momentaneamente, hospedar os de fora. Além disso, vale a pena lembrar que o ofício de carpinteiro (Mateus 13:55), se não permitia que José figurasse entre os homens mais bem escalonados na sociedade de sua época, certamente lhe dava ao menos o suficiente para o aluguel de uma hospedaria das mais simples por alguns dias.
          Todavia, a compreensão da real causa para não haver lugar para eles na hospedaria e, por isso mesmo, o nascimento de Jesus ter ocorrido num estábulo passa, antes de tudo, por uma análise a respeito dos costumes que envolviam a sociedade judaica. Assim, não se pode desprezar, de maneira alguma, a forte influência da religiosidade nos hábitos daquele povo, a ponto de as ações cotidianas serem totalmente orientadas por preceitos religiosos. A lei judaica considerava impura a mulher que estivesse prestes a dar à luz, bem como seria impuro tudo o que ela tocasse durante o tempo da sua purificação, que variava de 40 a 80 dias, a depender do sexo do bebê (Levítico 12:1-5). Como o relato bíblico deixa clara a condição de parturiente na qual Maria se encontrava (Lucas 2:5-6), é bastante provável que nenhum hospedeiro tenha se disponibilizado a recebê-la, obrigando seu esposo a buscar abrigo numa estrebaria para que ela não desse à luz ao relento. Jesus, desde o momento do seu nascimento, foi vítima da exclusão e da opressão social ocasionadas pelo apego demasiado do povo judeu à religiosidade.
            Mesmo que atualmente nosso contexto social seja bem diferente da época em que Jesus nasceu, ainda é perceptível a existência da exclusão e da opressão social que a religiosidade exacerbada pode ocasionar. Em pleno século XXI, milhares de pessoas são discriminadas diariamente e inúmeros conflitos bélicos continuam sendo deflagrados por conta da intolerância religiosa. No Brasil, o radicalismo religioso demoniza e exclui, por exemplo, os praticantes das religiões de origem africana, desrespeitando-os como cidadãos, apesar de haver leis que defendam a liberdade religiosa em todo o território nacional. Ainda hoje, portanto, a pessoa de Jesus – por meio dos seus ensinamentos – não tem encontrado lugar na vida de muita gente, em virtude de uma religiosidade cega que acaba, na verdade, invalidando a mensagem que Ele veio trazer ao mundo.    
           
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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Não me envergonho do evangelho, mas morro de vergonha dos evangélicos

Por Jurgen Souza

Na sua origem grega, a palavra ευαγγέλιον significava "boa notícia", "boa mensagem" ou "boa nova" e foi usada no texto bíblico para fazer referência aos ensinamentos trazidos por Jesus, considerados uma boa notícia ao povo israelita, o qual esperava há tanto tempo pelo messias que traria a salvação da qual tanto os israelitas necessitavam. Para muito além disso, a boa notícia era que Deus se importava com a humanidade e desejava relacionar-se com ela, a ponto de tornar-se humano e habitar entre nós. Todavia, as vivências da sociedade contemporânea têm propiciado distorções graves e inadmissíveis com relação ao que é, de fato, evangelho e, como já aconteceu em outros momentos da história, ações cruéis e desrespeitosas têm sido propagadas em nome de Deus, sob a suposta alegação de se estar pregando o evangelho. Foi exatamente isso que aconteceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, onde uma igreja evangélica espalhou outdoor's com mensagens bíblicas selecionadas para ofender os homossexuais, às vésperas da 7ª Parada do Orgulho Gay no município.
O pastor da igreja responsável pelos cinco outdoor's espalhados pela cidade, um deles inclusive no trajeto em que passaria a passeata organizada pelos homossexuais, assegurou que não via como provocação ou ofensa as mensagens veiculadas. Não foi o que entendeu a justiça, que ordenou a imediata retirada das mensagens e ameaçou multar a igreja em R$ 10 mil, caso a ordem não fosse cumprida. Contudo, ainda que não houvesse ofensa nas mensagens, não parece nenhum pouco respeitoso e nem mesmo prudente propagar tais ideias em meio a uma passeata que reuniria milhares de pessoas que não compartilham do mesmo pensamento. Mesmo que fosse com a melhor das intenções, uma ação como essa poderia desencadear uma retaliação até mesmo violenta, com a invasão ou a depredação de igrejas evangélicas em geral por parte dos grupos que se sentissem ofendidos.
O que é mais intrigante, porém, nesse ato de irresponsabilidade cometido por essa igreja é que quase todos os dias alguns dos líderes evangélicos mais conhecidos no país bradam aos quatro cantos que as igrejas evangélicas são alvo de perseguição e desrespeito, alegando inclusive que, se o Estado é laico, seria imprescindível respeitar a diversidade religiosa. Contraditoriamente, no entanto, é justamente do segmento evangélico que vêm as mais gritantes ações de desrespeito à diversidade e aos direitos da liberdade de expressão. Aliás, foi justamente a essa liberdade de expressão que o pastor se apegou para se justificar. Segundo ele, os evangélicos estariam apenas “aproveitando a oportunidade que eles estão divulgando a maneira de viver deles para expressar o que Deus diz a respeito”, mas não há dúvida de que um ato como esse pode ser classificado minimamente como de mau gosto e, se for levado mais a sério, configura um tremendo desrespeito ao direito de o outro manifestar sua opinião, já que, como bem disse uma das responsáveis pelo evento, “Todos os seres humanos têm direito a expressar o que quiserem, mas têm o ano todo para fazer isso. Fazer na semana da diversidade é uma maneira de ataque, não tinha essa necessidade.
O pastor da igreja responsável pelos outdoor's ainda afirmou que os evangélicos amam “essas pessoas (se referindo aos homossexuais), mas a forma que elas vivem está contrária àquilo que Deus diz”. Diante de tal afirmação, cabe questionar: por que não fazer, então, um outdoor falando desse amor? Talvez quando os evangélicos – e não falo isso me excluindo desse grupo – proclamarem mais o amor de Deus ao mundo por meio de suas ações, sendo usados como instrumento da graça redentora que alcança o outro sem precisar desrespeitá-lo, quem sabe o evangelho não seja uma “boa notícia” para essa humanidade já tão atolada em más notícias?

sábado, 6 de agosto de 2011

As aparências enganam

Por Jurgen Souza

            Um dos aspectos mais valorizados no mundo contemporâneo é a imagem. Vivemos em um tempo em que não importa muito o que você de fato é, mas sim o que você parece ser. O cotidiano por demais agitado em que estamos inseridos não nos permite desenvolver relações mais profundas e acaba nos conduzindo a enxergar o outro apenas superficialmente. Por conta disso, as relações humanas estão cada dia mais marcadas pelo preconceito (um conceito formado antes de se ter uma visão mais aprofundada), evidenciando nossa clara preferência pelas aparências.
Até mesmo – e, por que não dizer, principalmente – os cristãos, que foram orientados por Jesus a vivenciar uma dimensão mais profunda de relacionamento com o outro (João 15:12), têm optado por valorizar somente as aparências. Todavia, como podemos perceber através do filme “A luz da escuridão” – anexado propositalmente a este texto –, as aparências enganam. Infelizmente, porém, o meio cristão está repleto de pessoas que se deixam enganar pelas aparências, acreditando piamente que Deus só pode manifestar sua graça por intermédio daqueles a quem julgamos – em geral pelas evidências externas – "santos".
Por conta do preconceito religioso, acabamos limitando o agir do Deus que nós mesmos dizemos acreditar que pode todas as coisas, esquecendo-nos de que, para muito além das aparências, Ele vê o coração (1 Samuel 16:7b). O mais impressionante, contudo, é que tal atitude preconceituosa por parte de muitos cristãos revela o desconhecimento ou o não-entendimento da orientação que o próprio Jesus deu a esse respeito, como relata o texto bíblico de Lucas 10:25-37. Nessa passagem bíblica muito lida entre os cristãos, Jesus dialoga com um homem religioso que deseja saber como ter a vida eterna e é orientado por Jesus a cumprir o que a lei diz: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças e com todo entendimento, e o próximo como a ti mesmo”. Aquele homem religioso, sabendo que, mesmo sendo doutor da lei, não a cumpria na prática, pergunta então a Jesus como saber quem seria o “próximo” que a lei determina que devemos amar, e Jesus responde contando uma parábola (história usada para facilitar o entendimento).
A parábola usada por Jesus envolve três personagens muito conhecidos no universo religioso daquele homem: um sacerdote, um levita e um samaritano. O sacerdote era um líder religioso importante, responsável – na religião judaica – por receber a mensagem de Deus numa parte reservada do templo, chamada de santo dos santos, e depois transmiti-la ao povo. O levita era um ajudante do sacerdote, responsável por preparar o altar para os holocaustos (sacrifícios), comuns na religião judaica. O samaritano – habitante da cidade Samaria – fazia parte de um povo considerado idólatra com quem os judeus tinham uma antiga rixa (João 4:9b). Na verdade, houve um tempo em que a cidade de Samaria pertencia aos judeus, mas foi invadida pelo império assírio por volta do ano de 722 a.C., sendo que seus novos habitantes, apesar de serem de várias origens – já que o exército assírio era formado por homens de vários outros povos dominados pelo império –, passaram a ser chamados de samaritanos e, desde aquela época, passaram a ser odiados pelos judeus (2 Reis 17:24-41).   
            O relato da parábola conta que um homem vinha de Jerusalém para Jericó, mas foi assaltado, espancado pelos malfeitores e estava quase morto, caído na estrada (provavelmente todo ensanguentado e desacordado). Pelo mesmo caminho, passaram um sacerdote, depois um levita e, por último, um samaritano, mas somente este deu socorro ao homem assaltado. Os dois primeiros passantes seriam, aparentemente, os mais “santos” e dignos de serem instrumentos da ação da graça de Deus na vida daquele homem, no entanto eles fizeram questão de passar longe, talvez porque tenham colocado seus próprios interesses como prioridade, já que a lei dizia que, se o sacerdote ou o levita tocassem em um morto – e o homem estava quase morto –, seriam considerados impuros e seriam impedidos temporariamente de exercer seus cargos religiosos (Levítico 21:1-2).
O terceiro passante certamente seria, observando apenas as aparências, o que teria menos motivos para prestar socorro ao homem assaltado, porque estava de viagem em terra estranha e, principalmente, porque sabia que aquele homem era um judeu – e os judeus odiavam os samaritanos. Mesmo diante disso, aquele samaritano decidiu parar e ajudar o homem caído, prestando-lhe ali mesmo os primeiros socorros, levando-o depois para uma hospedaria onde seria melhor cuidado e deixando uma quantia com o hospedeiro para que pudesse tomar todas as providências necessárias. Perceba que, contrariando as aparências, o samaritano não levou em conta seus próprios interesses, mas investiu seu tempo, seu cuidado e seu dinheiro no nobre empreendimento do amor ao próximo.
Então, depois de contar a parábola, Jesus retoma o diálogo com o doutor da lei e pergunta qual daqueles três havia sido o “próximo” do homem assaltado, e ele – mesmo se recusando a afirmar que fora o samaritano – responde que havia sido o que teve misericórdia do homem. Jesus, demolindo todas as barreiras do preconceito que os judeus tinham a respeito dos samaritanos, afirma ao doutor da lei que, se ele quer ter de fato a vida eterna, deve fazer a mesma coisa que aquele samaritano fez. Essa afirmação contundente evidencia um Cristo que não está preocupado com as aparências religiosas, mas que deseja manifestar a sua graça ao mundo por meio daqueles que verdadeiramente abram mão dos próprios interesses em favor do outro.  

segunda-feira, 25 de julho de 2011

À espera de um desconhecido

Por Jurgen Souza
         Antes que você me pergunte, caro leitor, se é mentira ou se é verdade o que este breve relato conta, quero lhe assegurar que esse mal fadado acontecimento poderia ter ocorrido em qualquer outra igreja de classe média de nosso país, mas não é que cismou de ser justamente lá pelas bandas de Brasília! Ah, e desta vez nada tem a ver com os políticos profissionais que habitam o nosso imaginário quando ouvimos falar de tão afamada cidade!
         Foi numa dessas igrejas grandes, ricas e bonitas, cheia de gente importante e digna de nota no jornal. Uma grande notícia trouxera muita esperança e alegria a cada pessoa daquela comunidade de fé: Jesus havia voltado e estava em Brasília. Todos vestiram as melhores roupas e foram à igreja para esperá-lo chegar. Nem mesmo a fina e fria chuva daquela noite de novembro impediu – como acontecia normalmente quando o tempo esfriava – que o templo estivesse lotado. O culto, lá dentro, parecia animado. Os instrumentos, as vozes, as palmas... todos pareciam muito felizes.
         Do lado de fora, um homem negro, barbudo, maltrapilho e com uma mochila nas costas tentava entrar na igreja. Um irmão, que fazia as vezes de recepcionista, tentou convencer o pobre homem de que o templo estava lotado e que eles estavam esperando um convidado muito especial. Pela porta de vidro, era possível notar que até um tapete vermelho estava preparado para a recepção do ilustre visitante. O homem, por sua vez, afirmou que ele era o convidado da noite, mas o rapaz da recepção apenas riu, como quem não o havia levado a sério. Ainda assim, o homem continuou insistindo em afirmar que todos ali estavam esperando por ele, até que foi retirado pelo segurança por estar perturbando a tranquilidade do lugar.

        Agarrado pelo braço, ele gritava: “Eu sou Jesus! Eu sou Jesus!”. Os hinos cessaram por um instante. Cessou-se a alegria. Um momento doloroso de silêncio foi feito, enquanto todos olhavam para trás, mas ninguém o reconhecia ou, o que era ainda pior, ninguém o conhecia. Uns e outros ainda cochicharam entre si que seria mesmo um absurdo um mendigo achar que era Jesus. Poucos minutos depois, passada a confusão, todos voltaram a cantar felizes e continuaram esperando a visita de Jesus. Contam os mais velhos que esperaram por quarenta dias e quarenta noites, até que se cansaram e voltaram para casa. Alguns não esperam mais; outros ainda hoje esperam; ninguém, no entanto, parou para pensar que aquele poderia ser de fato o visitante pelo qual tanto ansiavam.  

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Entre a lei e a graça: chamando Jesus para o debate

Por Jurgen Souza


            Considerado uma vitória na luta pelo respeito à diversidade e pela igualdade de direitos das minorias sociais, o reconhecimento por parte do Supremo Tribunal Federal (STF) da união estável entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar, garantindo-lhes os mesmos direitos e deveres dos casais heterossexuais, acabou gerando uma grande mobilização das lideranças evangélicas, encabeçada pelos mais populares pregadores da mídia. Os protestos abrangiam outros temas, mas concentravam-se estrategicamente na decisão do STF e na possível aprovação pelo Senado do polêmico Projeto de Lei nº 122/2006, que criminaliza “a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero, punindo tais crimes na forma da lei”. Longe de querer ajuizar a respeito das questões legais imbricadas nessa problemática, o presente texto deseja, na verdade, partir desse fato real que envolve a sociedade brasileira contemporânea para chegar a uma discussão mais centrada no comportamento esperado de um autêntico discípulo de Jesus em contextos de discriminação, exclusão e opressão social, enfocando a relação lei versus graça.
            Tomando por base diversos trechos da bíblia, principalmente os retirados das cartas paulinas, a questão da divergência entre a lei e a graça é um dos pontos mais recorrentes no discurso das igrejas evangélicas. Constitui-se uma verdade entre os cristãos evangélicos o fato de que todo e qualquer ser humano precisa da graça de Deus, uma vez que não há ninguém que possa alcançar a salvação por merecimento próprio ou por algum outro meio (Efésios 2:1-9). Do mesmo modo, os cristãos evangélicos consideram como verdade o fato de que, uma vez alcançado pela graça de Deus, o ser humano não deve estar mais sob a égide da lei, buscando ter posturas e ações que evidenciem entre os homens a condição de estar “debaixo da graça” (Romanos 6:15). Antes que alguém pense em dizer que tais leis eram apenas religiosas, vale aqui a ressalva de que, numa sociedade teocrática como a daquela época, as leis religiosas eram também as leis sociais.
Para não ficar restrito às cartas paulinas, as quais fazem na verdade uma releitura das narrativas dos evangelhos, é possível perceber claramente nas posturas e ações do próprio Jesus esse posicionamento em favor da graça. A respeito da lei, ele diz que veio cumpri-la e não destruí-la (Mateus 5:17), mas faz duras críticas a escribas e a fariseus por negligenciarem o mais importante dela, que é agir com justiça, com misericórdia e com fé (Mateus 23:23). Contudo, foram as atitudes de Jesus frente a situações polêmicas diante da lei que evidenciaram sua opção pela graça, levando-o a ser questionado, em vários momentos, pelos religiosos da época acerca de questões do cotidiano, principalmente as que envolvessem a prática da lei. Em geral, seu posicionamento expressava a ideia de que, ainda que estivesse escrito na lei, nada que atentasse contra a vida e a dignidade do ser humano tinha razão de ser, mesmo porque toda a lei se resumia em “amar a Deus e ao próximo” (Mateus 22:37-40), como se pode observar no seu encontro com a mulher apanhada em adultério (João 8:1-11) e na cura de um homem acometido de lepra (Lucas 5:12-14). 
A lei da época era taxativa nos casos em que uma pessoa fosse pega em adultério, condenando-a sumariamente à morte por apedrejamento em praça pública (Levítico 20:10). Quando os defensores da lei apresentaram a Jesus aquela mulher, já tão humilhada por estar sendo exposta publicamente e tão sem esperança por ter conhecimento da sanção a que estava sujeita, talvez esperassem dele a mesma atitude autoritária de outros líderes religiosos, optando pelo rigor da lei. Ao contrário, porém, Jesus, depois de um breve silêncio, ousou conduzi-los a se colocarem em lugar daquela mulher, evidenciando que, mesmo não concordando com as ações que ela havia praticado, todos eles compartilhavam igualmente com ela da condição de falibilidade humana e, nesse sentido, eram todos igualmente carentes da graça de Deus. Sua opção pela graça ao invés da lei priorizava, então, a preservação da vida humana, retornando aos mandamentos principais da própria lei.
Da mesma forma, a lei também era implacável nas situações que envolvessem alguém acometido de lepra. Criada inicialmente por uma questão de saúde pública, com o intuito de evitar a proliferação de uma doença até então sem cura, tal lei condicionava a pessoa leprosa a um contexto de evidente exclusão social e a expunha de forma vexatória diante de todos, uma vez que tal pessoa era obrigada a viver isolada à margem da cidade e, quando alguém tentasse se aproximar, deveria deixar clara a sua condição de excluída, gritando bem alto “Imunda! Imunda!”, para que ninguém a tocasse (Levítico 13:45-46). No seu encontro com aquele homem leproso, Jesus, ao contrário do que se esperava de um líder religioso da época, fez questão de estender a mão e tocar nele, realizando seu desejo de ser curado daquela enfermidade que, para além das limitações físicas, impunha-lhe dolorosas limitações sociais. Demonstrando a clara intenção de retirar aquele homem da segregação social à qual estava exposto, Jesus, depois de curá-lo, orienta-o a mostrar-se ao sacerdote e a oferecer o sacrifício devido para a purificação, já que a lei preconizava que somente o sacerdote, após a oferta do sacrifício, poderia considerá-lo puro e reinseri-lo no convívio social (Levítico 14:1-20). Ao optar pela graça em lugar da lei, Jesus dava, então, prioridade à restituição da dignidade humana perdida por conta do flagrante processo de exclusão e opressão social.   
O exemplo deixado por Jesus, e que deveria ser seguido por aqueles que se dizem seus discípulos, é o de fazer sempre uma opção pela graça, principalmente diante de situações em que a lei atente contra a vida e a dignidade humana, mas a vivência cotidiana dos cristãos evangélicos em meio à pluralidade do mundo contemporâneo tem revelado, salvo algumas poucas exceções, comportamentos fundamentalistas e excludentes, que em nada lembram as ações de Cristo. No que tange à decisão do STF e ao Projeto de Lei nº 122/2006 que tramita no Senado, cabe refletir sobre o que levou as autoridades nacionais a buscar resguardar a igualdade de direitos desse grupo de cidadãos brasileiros.  Sem sombra de dúvidas, foi a inegável existência de ações discriminatórias por porte de toda a sociedade brasileira – incluindo o segmento evangélico – em relação aos homossexuais que conduziu o órgão máximo da justiça brasileira a tomar tal decisão e o Congresso Nacional a debater leis que combatam o preconceito. Não se trata aqui, de maneira alguma, de defender essa ou aquela bandeira, mas de se pensar a respeito da propagação entre os homens da graça de Deus por intermédio das ações dos discípulos de Jesus Cristo, pois somente uma sociedade carente de ações práticas reveladoras da graça de Deus é que precisa recorrer à criação de leis e sanções específicas para coibir a discriminação, a exclusão e a opressão social.

domingo, 26 de junho de 2011

O papel da religião na luta pela cidadania

Por Jurgen Souza

Quando o termo “cidadania” surgiu ainda na Grécia Antiga, sua concepção não abrangia todos os moradores da polis, uma vez que, nessa época, somente era considerado cidadão o homem-livre e nascido na terra, o qual gozava da isonomia (direito de igualdade perante as leis) e da isegoria (direito de opinar sobre as questões administrativas da polis), mas tal condição era restrita apenas aos que tinham mais posses. Todavia, ainda que se restringisse a uma pequena parcela da população grega, o direito à cidadania era algo inovador para aquele momento, visto que, em antigos impérios – como o persa, o egípcio, o babilônico, o hindu e o chinês –, vigorava o poder absolutista do déspota, que, legitimado pelo discurso religioso, oprimia a população. Somente no final do império greco-romano, a partir das reivindicações dos camponeses pobres, a cidadania se estendeu a qualquer homem-livre que nascesse naquela terra, independente de sua situação econômica.
Apesar de não fazer uso do termo “cidadania”, a literatura profética bíblica tem vestígios indeléveis da existência, antes mesmo das supostas origens gregas, de uma discussão acerca de tal assunto, evidenciada quando se estudam os discursos proféticos a respeito do reinado israelita de Jeroboão II (787 – 747 a.C.), destacando-se as contribuições dos profetas Amós e Oséias. Último rei da Dinastia de Jeú, Jeroboão II inverteu um sucessivo quadro de crises político-econômicas no Reino de Israel, pois os reis que o precederam haviam sido obrigados a pagar tributos e até a entregar parte de seu território a outros reinos. Ele, então, retomou as terras perdidas e deteve o controle das principais rotas comerciais da época, além de ter sido favorecido pelas boas relações com o Reino de Judá e pela aparente estagnação do Império Assírio. Esse período de grande riqueza foi marcado, porém, por um terrível processo de desigualdade social, pois o sistema administrativo concentrava a renda nas mãos de poucos e empobrecia a maioria da população. Contribuindo para o aumento dessa desigualdade, a religião servia de centro arrecadador do reinado, oprimindo ainda mais o povo.
Contrários a essa opressão política, social e econômica a que o povo fora submetido, insurgiram-se Amós e Oséias, representantes do profetismo naquela época, os quais instauraram um debate que, bem entendido, via as questões religiosas como práticas sociais de poder e subjugação. Amós, retratando o primeiro momento do reinado de Jeroboão II, fez uma crítica ferrenha ao fato de o espaço religioso estar sendo utilizado como cenário de manipulação e subjugação do povo, que, já tão explorado pelas políticas adotadas no reino, era incitado pelo sacerdote a contribuir ainda mais, pois o templo, nessa época, estava a serviço do Estado, e o sacerdote era funcionário do rei. Além disso, o profeta fez críticas duríssimas diretas à estrutura governamental, denunciando o incentivo aos grandes latifúndios, a imposição de pesados tributos aos pequenos agricultores, o regime de trabalho forçado da corvéia e o suborno ao direito dos pobres por parte dos mais ricos.
Oséias, por sua vez, retratou os momentos finais do reinado de Jeroboão II, denunciando principalmente a inserção de elementos do culto a Baal na religião israelita, que legitimavam a opressão e a exploração do povo. Alguns historiadores afirmam que os rituais de fecundidade e fertilidade da terra, que passaram a fazer parte da religião popular, eram uma forma de aumentar a taxa de natalidade entre os mais pobres e, consequentemente, a mão-de-obra na corvéia, gerando mais riqueza para os latifundiários. Outros estudiosos, no entanto, viam tal questão religiosa sob a ótica política, pois a aceitação dessa idolatria poderia levar Israel a procurar a salvação não em Deus, mas nas alianças com o Egito e a Assíria – grandes potências militares do momento. Não era propriamente à religião, portanto, que se dirigia a dura crítica do profeta, mas à forma dissimulada de opressão e cerceamento de direitos dos cidadãos israelitas a que a religião se servia, e ao próprio sistema monárquico, que é visto como fruto da ira de Deus.
Não menos desigual e opressora, a sociedade contemporânea ainda encontra respaldo na religião para cercear o direito à cidadania para muitas pessoas. Uma religião que fecha os olhos para a condição de opressão social a que os menos abastados estão submetidos aponta para uma forma de relação entre o sagrado e o humano que responde apenas aos anseios dos estratos sociais mais elevados. Não se pode negar também que a escolha da forma de vivenciar a religiosidade leva em consideração outros interesses, podendo a religião, como aconteceu em muitos momentos da história, estar a serviço do poder político vigente, sendo usada como instrumento de manutenção da ordem social. É facilmente perceptível, desde que não fechemos os olhos à realidade, que, apesar de vivermos num país em que a Constituição Federal estabelece a cidadania como princípio fundamental, reconhecendo que todos os brasileiros têm direito a ela, aqueles que ocupam uma posição subalterna nas estruturas sociais parecem não ter assegurados os seus direitos de cidadãos, pois não lhe são dadas as condições necessárias para que isso ocorra.
É possível ser verdadeiramente um cidadão com um sistema de justiça moroso para os marginalizados e eficaz para os detentores do poder? Podemos exercer, de fato, o direito à cidadania sem ter acesso à educação e à saúde pública de qualidade? Alguém pode se considerar cidadão quando sequer tem o que comer? Perguntas como essas nos emudecem porque as respostas que temos a dar são vergonhosas. Percorremos, ao longo desse texto, um caminho reflexivo que partiu das origens históricas, relembrando e aprendendo com as histórias bíblicas, para chegarmos às implicações que o debate acerca da cidadania pode abarcar. Essa trajetória, longe de ser apenas um mero retorno ao passado, anseia por nos conduzir de volta ao debate contemporâneo acerca da cidadania, sem que, no entanto, possamos nos esquecer das tênues relações que existiram e existem entre as práticas religiosas e os processos legitimadores de poder. Espera-se, assim, que a leitura deste texto venha, ao menos, possibilitar algumas reflexões necessárias das quais não poderemos mais fugir, pois o direito à cidadania e as políticas que a implementam passam, antes mesmo de passar pelo Congresso Nacional, pela sociedade civil organizada e atuante, da qual as instituições religiosas precisam fazer parte. Não podemos deixar de ouvir os gritos proféticos que ainda hoje ecoam, ávidos por resposta.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A participação da igreja local no desenvolvimento de uma cultura de paz

Por Jurgen Souza

O debate cada vez mais atual sobre a necessidade de se estabelecer uma cultura de paz que avance de contextos específicos para contextos gerais aponta, inevitavelmente, para a cruel realidade da violência existente em nosso país. O Brasil exuberante, rico em paisagens naturais e em diversidade cultural, também figura no cenário internacional como um país tomado pela violência. O imaginário coletivo, no entanto, parece associar, quase que imediatamente, as situações de violência a Rio de Janeiro e São Paulo, por conta da sua super-exposição na mídia nacional, mas tal realidade atinge também as pequenas cidades e outros centros urbanos país afora. Um exemplo disso é a cidade de Salvador, que teve o maior crescimento da taxa de violência entre as capitais do país, registrando um aumento de 79% nos homicídios entre os anos de 2006 e 2008, de acordo com a própria Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia.
Discutir a respeito da formação de uma cultura de paz é, antes de tudo, refletir sobre a violência, buscando entender suas causas e, nesse intuito, alguns estudos demonstraram que, apesar de não ser a única causa da violência, a desigualdade social certamente serve de impulso para ela, sendo os problemas sociais decorrentes da organização capitalista da sociedade os maiores causadores do aumento da violência nos últimos anos. A Unesco, em 2000, lançou um manifesto por uma cultura da paz, no qual se veiculam ideias consensuais que apontam para a necessidade da construção de uma ambiência que possa permitir aos homens uma vida pacífica, incluindo necessariamente a participação da igreja na propagação dos valores essenciais à consolidação desse ethos de paz, engajando-se na tarefa de conduzir os indivíduos a desejarem a formação desse ambiente e a se comprometerem com essa causa.
Como propõe a Campanha Global de Educação para a Paz, lançada em Haia, em 1999, o estabelecimento de uma cultura de paz deve fazer parte do cotidiano eclesiástico, figurando entre os temas debatidos e as ações desenvolvidas pelas igrejas. A proposta afirma que, nesse sentido, seria papel da igreja criar referenciais não-violentos, fortalecer conexões comunitárias, formar consenso para a paz, capacitar pessoas para a mudança pela paz, promover justiça e o fim das desigualdades sociais, oportunizar vivências plurais para além dos preconceitos e estereótipos, instrumentalizar para a resolução não-violenta de conflitos, ajudar a lidar com a agressividade, e desenvolver uma crítica à cultura de violência.
Na contramão de tudo isso, porém, as igrejas cristãs protestantes parecem estar, em sua maioria, fechadas em si mesmas, disseminando a crença de que a violência teria causas essencialmente espirituais. Mais do que um posicionamento religioso, essa atitude ensimesmada produzida pelo protestantismo seria, numa análise weberiana, uma clara postura de apoio aos comportamentos que norteiam a sociedade capitalista, formadora de desigualdades. Os discursos e as práticas eclesiásticas adotadas por muitas dessas igrejas reproduzem, na verdade, o individualismo exacerbado para o qual o ideal capitalista conduz, na tentativa de evitar a instauração da solidariedade entre comunidades atingidas pela desigualdade social e, consequentemente, pela violência. Fazendo-se uma retrospectiva ao período de surgimento do cristianismo, é possível perceber uma clara diferença entre essa postura isolacionista das igrejas cristãs protestantes da atualidade e a postura adotada pelas igrejas cristãs do primeiro século, ou pelo próprio ministério de Cristo ou, até mesmo, pelas sinagogas judaicas do período de Jesus.
As chamadas igrejas primitivas buscaram estabelecer uma comunidade que se importava com o próximo, que repartia suas posses a fim de suprir as necessidades uns dos outros, dedicando-se a cuidar dos necessitados de modo justo e equânime e desenvolvendo o pensamento de que os que têm em abundância deveriam compartilhar com os que nada têm, para que todos pudessem viver de maneira digna e em paz uns para com os outros.  O ministério de Cristo, antes disso, já mostrava o caminho do envolvimento com o outro e com suas mazelas, pois a proclamação do evangelho acontece, de fato, justamente nessa opção pelo envolvimento com as causas dos menos favorecidos. Antes mesmo de Jesus, as sinagogas judaicas, por mais excludente que pudesse ser aquela sociedade, também não estavam interessadas apenas na realização do culto, servindo – numa atitude de envolvimento com a comunidade – como escola durante a semana, ajudando na educação de jovens e crianças.
Para que haja, de fato, uma cultura de paz, o conceito de igreja precisa mudar. Uma igreja comprometida com a paz pensa o espaço eclesial como parte da comunidade em que ela está inserida e posiciona-se como uma instituição da qual toda a comunidade faz parte, mesmo aqueles que não são cristãos. A participação de todos no processo eclesial ocorre no envolvimento com as ações pedagógicas da cultura da paz, tornando a igreja uma instituição aglutinadora e promotora do desenvolvimento dessa comunidade. Não se trata aqui de uma visão ingênua, como se a igreja, por si mesma, tivesse o poder de resolver o problema da violência, mas o que se deseja é que ela faça parte desse processo, uma vez que, se a violência é causada por múltipos fatores, sua solução exige ações integradas de múltiplos agentes dentro da comunidade.
Uma igreja que deseja participar ativamente do desenvolvimento de uma cultura de paz na comunidade da qual faz parte precisa inverter as prioridades. Urge repensar a forma como a igreja cristã tem proclamado o evangelho de Jesus Cristo em meio a um povo tão sofrido, tão alijado de seus direitos mais essenciais e que, por vezes, encontra na criminalidade a única forma de sobrevivência nesse mundo cruel que nós ajudamos a criar. Assim, o principal objetivo da proclamação das boas novas deve ser revelar Deus à humanidade, sabendo que tal revelação só se dará, de fato, no envolvimento com o outro e com os dilemas que o cercam. Sem isso, proclamar o evangelho será algo inútil ao reino de Deus e servirá – como infelizmente tem servido na atualidade – apenas como discurso legitimador da opressão e da exploração humana, do qual se apropria uma meia dúzia de gente interesseira e gananciosa, no intuito de se auto-promover e enriquecer ilicitamente.
A participação da igreja local na construção de uma cultura de paz é imprescindível, mas a igreja cristã, em especial o segmento dito protestante, precisa entender melhor sua verdadeira missão, engajando-se nessa causa que, certamente, é parte indissociável da causa do próprio Cristo. Não há sentido algum em a igreja fazer qualquer coisa que não seja orientada por e para a transformação real das vidas que pretende atingir com o evangelho. Em última instância, a caminhada de envolvimento com esse processo de mudança da realidade ao nosso redor acaba por nos revelar mais sobre Deus e permite que Ele estabeleça conosco uma relação que nos conduz a uma vida abundante, verdadeiramente plena, dignamente humana, como ele mesmo desejou em nossa gênese.